Da Folha à Molécula: o Que Realmente Extraímos Quando Preparamos uma Planta?

Por Simão Sirineu — Ney Hair

Série: Da Planta ao Ser Humano | Vital Essencial

No artigo anterior, eu propus uma mudança aparentemente simples na maneira de olhar para uma planta medicinal.

Em vez de enxergá-la como se fosse uma única substância, passamos a observá-la como uma matriz química complexa.

Dentro de uma folha, casca, raiz, flor, fruto ou semente podem existir diferentes famílias de constituintes: flavonoides, terpenos e terpenoides, fenóis e polifenóis, glicosídeos, saponinas, taninos, vitaminas, minerais e muitas outras substâncias.

Essa diversidade também está presente na organização que desenvolvi em Se Curando com a Mente e com as Ervas, onde dediquei uma sequência do livro a diferentes classes de constituintes vegetais. _Se curando com a mente e com a…

Mas essa constatação nos leva imediatamente a uma nova pergunta.

Se existem tantas substâncias dentro de uma planta, o que acontece quando colocamos essa planta na água para fazer um chá?

Será que tudo que existe na folha passa para a água?

E se utilizarmos álcool?

E se triturarmos a planta?

E se aumentarmos a temperatura?

É aqui que nossa viagem precisa entrar em um território inevitável:

a Química.

A planta que seguramos não é a preparação que bebemos

Esse é o primeiro conceito que precisamos estabelecer.

Quando seguramos uma folha seca nas mãos, temos uma determinada matriz vegetal.

Quando colocamos essa folha em água quente, produzimos outra matriz.

O líquido resultante contém uma fração daquilo que estava originalmente no vegetal, condicionada pelo processo empregado.

Isso significa que:

PLANTA ≠ EXTRATO

E isso muda muita coisa.

Uma planta pode conter dezenas ou centenas de constituintes detectáveis, mas isso não significa que todos estejam presentes em quantidades relevantes em uma infusão, decocção, maceração, tintura ou extrato.

Antes mesmo de a planta encontrar o organismo humano, portanto, já existe uma etapa de seleção.

A extração.

O que significa extrair?

Como químico, gosto de começar pela matéria.

Extrair significa utilizar determinadas condições para transferir componentes de uma matriz para outra fase — frequentemente para um líquido que chamamos de solvente.

Quando colocamos uma erva em água, por exemplo, não estamos simplesmente “colocando a planta dentro do chá”.

Estamos promovendo contato entre uma matriz vegetal e um solvente.

Alguns constituintes apresentam maior afinidade com aquele meio.

Outros, menor.

Alguns são extraídos com relativa facilidade.

Outros permanecem predominantemente na matriz vegetal.

Portanto, aquilo que aparece dentro da xícara depende, entre outras coisas, das propriedades químicas dos constituintes e das condições utilizadas no preparo.

Essa é uma das primeiras grandes pontes entre o conhecimento tradicional das ervas e a química.

Água não extrai tudo

A água é extraordinária como solvente, mas não dissolve todas as substâncias da mesma maneira.

Isso acontece porque moléculas apresentam características físico-químicas diferentes.

Uma maneira introdutória de compreender isso é pensar em polaridade.

A água é um solvente fortemente polar. De maneira geral, substâncias suficientemente compatíveis com esse ambiente apresentam maior possibilidade de serem solubilizadas nele, embora a realidade química seja mais complexa do que simplesmente dividir tudo entre “polar” e “apolar”.

É por isso que água e óleo não se comportam da mesma maneira.

E é também por isso que uma infusão aquosa não representa necessariamente toda a composição química da planta original.

Essa compreensão já nos permite abandonar uma ideia muito comum:

fazer um chá não significa retirar tudo que existe dentro da planta.

Estamos realizando uma extração seletiva.

E quando usamos álcool?

Agora nossa experiência mental fica ainda mais interessante.

Misturas de água e etanol apresentam propriedades diferentes da água isoladamente.

Ao modificarmos a proporção entre esses solventes, modificamos também o ambiente químico no qual os constituintes vegetais serão extraídos.

Por isso, um extrato hidroalcoólico pode apresentar composição diferente daquela obtida somente com água.

Isso não significa que álcool seja simplesmente “melhor”.

Essa conclusão seria errada.

A pergunta correta é:

melhor para extrair o quê?

Porque o objetivo não deveria ser retirar indiscriminadamente a maior quantidade possível de matéria.

O objetivo científico é compreender quais constituintes desejamos investigar e quais condições favorecem sua obtenção e preservação.

A temperatura também participa da extração

Agora imagine duas xícaras.

Em uma delas colocamos a planta em água fria.

Na outra, em água quente.

Mesmo utilizando a mesma planta, a mesma massa e o mesmo volume de água, não devemos presumir automaticamente que teremos preparações quimicamente idênticas.

A temperatura pode aumentar a velocidade de determinados processos de transferência e modificar a solubilidade de diferentes substâncias.

Mas existe outro lado.

Aquecer também pode transformar matéria.

Alguns constituintes podem ser sensíveis ao calor. Outros podem volatilizar. Outros podem sofrer transformações químicas dependendo da temperatura, do tempo e das condições do meio.

Portanto, novamente:

mais quente não significa necessariamente melhor.

Significa uma condição diferente de processo.

Infusão e decocção não são a mesma coisa

Na linguagem cotidiana, muitas vezes chamamos praticamente qualquer preparação vegetal com água de “chá”.

Quimicamente, vale fazer distinções.

Na infusão, normalmente colocamos água quente em contato com o material vegetal e deixamos a preparação em repouso por determinado período.

Na decocção, o material vegetal permanece submetido à fervura ou aquecimento em água durante certo tempo.

São condições diferentes.

E condições diferentes podem produzir perfis de extração diferentes.

Tradicionalmente, partes mais delicadas, como determinadas folhas e flores, costumam ser preparadas por infusão, enquanto materiais mais rígidos, como algumas cascas e raízes, frequentemente aparecem associados à decocção.

Mas a tradição de uso não substitui a caracterização química.

Ela pode indicar um caminho.

A química precisa investigar o que realmente aconteceu.

E existe também a maceração

Na maceração, o material vegetal permanece em contato com determinado solvente durante um período.

Aqui outra variável se torna evidente:

tempo.

Se o contato durar cinco minutos, temos uma condição.

Se durar algumas horas, outra.

Se durar dias, outra novamente.

Isso não significa que aumentar indefinidamente o tempo continuará melhorando a preparação.

Pode chegar um momento em que determinada extração se aproxime de um equilíbrio, enquanto outros fenômenos — degradação, oxidação, contaminação ou transformação — podem tornar-se relevantes.

É justamente por isso que um processo precisa ser definido.

O tamanho da partícula também importa

Pegue duas amostras da mesma folha.

Deixe uma praticamente inteira.

Triture a outra.

Agora coloque massas iguais delas no mesmo solvente e nas mesmas condições.

A trituração aumenta a área de contato disponível entre o material vegetal e o meio extrator.

Isso pode favorecer a transferência de constituintes.

Mas novamente aparece a regra que acompanhará toda esta série:

nenhuma variável trabalha sozinha.

Tamanho da partícula, solvente, temperatura, tempo, agitação e relação entre quantidade de planta e volume de líquido podem participar simultaneamente do resultado.

É aí que uma preparação artesanal começa a encontrar o conceito de processo.

Quando a tradição encontra o laboratório

Esse ponto é particularmente importante para mim.

Durante muito tempo, a humanidade aprendeu a utilizar plantas por observação, transmissão cultural e experiência.

A ciência não precisa apagar essa história.

Ela pode fazer outra coisa:

investigá-la.

Se determinada comunidade utiliza uma planta por infusão, podemos perguntar:

O que essa infusão extrai?

Quais moléculas conseguimos identificar?

Em quais concentrações?

O que muda se alterarmos temperatura ou tempo?

Essas substâncias permanecem estáveis?

Qual é a diferença entre a folha original e o líquido final?

Perceba a mudança.

Não estamos perguntando apenas se a tradição está “certa” ou “errada”.

Estamos tentando descobrir o que materialmente acontece durante aquilo que a tradição aprendeu a fazer.

Da cozinha para o laboratório: a importância da padronização

Agora chegamos a um conceito fundamental.

Imagine que hoje eu preparo uma planta utilizando:

10 gramas de material vegetal,

mas amanhã utilizo 30.

Hoje aqueço por cinco minutos.

Amanhã por quarenta.

Hoje utilizo 200 mL de água.

Amanhã utilizo um litro.

Posso chamar as duas preparações pelo mesmo nome, mas não posso simplesmente presumir que sejam equivalentes.

Por isso a ciência trabalha com padronização e registro das condições.

Massa.

Volume.

Temperatura.

Tempo.

Parte vegetal utilizada.

Estado da matéria-prima.

Granulometria quando relevante.

Solvente.

Método de extração.

Filtração.

Conservação.

Esses registros transformam uma experiência difícil de reproduzir em um processo que pode ser observado, repetido e comparado.

E isso muda a maneira de falar sobre plantas medicinais

Agora podemos compreender um problema muito comum.

Alguém lê:

“A planta X contém a molécula Y.”

E imediatamente conclui:

“Então meu chá contém Y na mesma proporção e Y chegará às minhas células.”

Não podemos fazer esse salto.

Entre a planta e a célula existem várias fronteiras.

Neste artigo já encontramos a primeira:

a extração.

Depois encontraremos outras:

digestão → absorção → metabolismo → distribuição → tecido → membrana celular → alvo molecular.

É exatamente por isso que nosso Mapa-Mãe não pode ser interpretado como uma sequência automática.

Ele é um mapa de investigação.

Um exemplo simples: a folha aromática

Pegue uma folha aromática e esmague-a entre os dedos.

Você sente o aroma quase imediatamente.

Isso já nos diz alguma coisa.

Existem constituintes voláteis capazes de chegar aos nossos receptores olfatórios.

Agora coloque essa mesma folha em água quente.

Parte dos constituintes pode migrar para a água.

Parte pode permanecer no vegetal.

Parte dos componentes voláteis pode escapar para a atmosfera.

Outros componentes podem apresentar comportamento diferente.

A planta é a mesma.

Mas o processamento modificou a forma como entramos em contato com sua química.

Essa observação aparentemente simples contém uma lição enorme.

Extrair não é apenas retirar: é selecionar

Essa talvez seja a principal ideia deste artigo.

Toda extração é também uma seleção química.

Quando escolhemos solvente, temperatura, tempo e processo, estamos criando condições que favorecem determinados componentes em relação a outros.

É por isso que duas preparações provenientes da mesma espécie vegetal podem não ser quimicamente equivalentes.

E é também por isso que precisamos ter cuidado quando transportamos resultados de um estudo científico para o uso cotidiano.

Se um trabalho utilizou um extrato padronizado específico, não podemos assumir automaticamente que uma xícara de chá doméstico reproduzirá aquela composição ou aquela dose.

Onde entra a Equação Amorfa?

Na minha construção da Equação Amorfa, procuro olhar o organismo através de relações e interdependências.

Aqui, porém, quero começar antes do organismo.

Quero olhar para a própria matéria vegetal.

A molécula não existe isoladamente no vazio.

Ela estava inserida em uma planta.

Depois foi submetida a um processo.

Encontrou um solvente.

Passou por determinadas condições físicas e químicas.

E somente depois poderá encontrar o organismo.

Isso nos permite ampliar o mapa:

PLANTA → PREPARO/EXTRAÇÃO → MOLÉCULAS EXTRAÍDAS → ORGANISMO

E, dentro do nosso Mapa-Mãe, continuamos investigando:

PLANTA → MOLÉCULA → COFATOR → CÉLULA → ORGANELA → FUNÇÃO → SER HUMANO

A primeira representação descreve uma etapa experimental importante.

A segunda continua sendo nossa arquitetura comunicacional central.

Uma não precisa substituir a outra.

A planta começa a revelar seus segredos

No artigo anterior, abrimos a planta e descobrimos que ela não era uma molécula.

Hoje demos outro passo.

Descobrimos que nem tudo que está na planta necessariamente estará na preparação que consumimos.

Isso depende da química.

Solvente.

Polaridade.

Temperatura.

Tempo.

Tamanho das partículas.

Proporção entre planta e solvente.

Método de preparo.

Estabilidade.

Tudo isso participa do resultado.

E agora estamos prontos para descer mais um nível.

Porque, depois de compreender que uma planta contém muitas moléculas e que o processo de extração seleciona parte delas, surge inevitavelmente uma nova pergunta:

o que essas moléculas fazem quando encontram o organismo humano?

Antes de chegarmos à célula, porém, precisamos conhecer melhor algumas dessas famílias químicas.

No próximo artigo da série, entraremos nos flavonoides.

Não apenas para dizer que eles “fazem bem”.

Vamos perguntar o que são, como suas estruturas diferem, o que acontece depois que os ingerimos e por que dizer simplesmente que uma planta “tem flavonoides” ainda é apenas o começo da história.

Porque a proposta desta série permanece a mesma:

Não estamos abandonando as ervas para estudar bioquímica. Estamos entrando dentro das ervas. E depois entrando dentro da célula humana para compreender o encontro entre as duas.

Simão Sirineu — Ney Hair
Técnico em Química | Cosmetologia | Autor de Se Curando com a Mente e com as Ervas
Vital Essencial — Série Da Planta ao Ser Humano

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