Uma Planta Não É Uma Molécula: o Universo Químico Escondido Dentro das Ervas Medicinais

Por Simão Sirineu — Ney Hair

Série: Da Planta ao Ser Humano | Vital Essencial

Quando seguramos uma folha de uma planta medicinal nas mãos, nossos olhos enxergam uma coisa só.

Uma folha.

Mas quimicamente não existe “uma coisa só” ali.

Existe água. Existem sais minerais. Existem carboidratos, proteínas, lipídios, pigmentos e inúmeras moléculas produzidas pelo metabolismo vegetal. Dependendo da espécie e do tecido que estamos observando, podemos encontrar diferentes famílias de compostos, entre elas flavonoides, terpenos e terpenoides, fenóis e outros polifenóis, glicosídeos, saponinas e taninos.

É justamente esse universo que comecei a explorar no meu livro Se Curando com a Mente e com as Ervas. Depois de discutir as afinidades das plantas com o organismo humano, dediquei uma sequência do livro a diferentes classes de constituintes vegetais — flavonoides, terpenos e terpenoides, fenóis e polifenóis, glicosídeos, saponinas, taninos, vitaminas, minerais e ácidos graxos essenciais.

Hoje quero dar um passo além daquela discussão.

Quero fazer uma pergunta aparentemente simples:

Quando alguém diz que uma planta medicinal “faz alguma coisa no organismo”, o que exatamente está fazendo essa coisa?

A resposta começa na química.

A planta é uma matriz química

Essa talvez seja uma das ideias mais importantes desta série.

Uma planta não é uma molécula.

Quando utilizamos uma folha, uma casca, uma raiz, uma semente ou um fruto, estamos diante de uma matriz vegetal complexa, formada por muitas substâncias coexistindo em uma estrutura biológica.

Isso muda profundamente a maneira como eu proponho estudar as plantas.

Em vez de começarmos perguntando:

“Para que serve esta planta?”

podemos começar perguntando:

“O que existe dentro desta planta?”

A mudança parece pequena, mas abre uma porta gigantesca.

Porque, quando fazemos a segunda pergunta, somos obrigados a entrar na matéria.

Vamos entrar dentro da folha

Imagine que temos diante de nós uma folha medicinal.

Se ampliássemos essa folha cada vez mais, chegaríamos aos tecidos vegetais.

Continuando a ampliação, encontraríamos suas células.

E dentro e ao redor dessas células encontraríamos uma enorme diversidade de estruturas e substâncias químicas.

A planta precisa realizar fotossíntese, respirar, crescer, transportar substâncias, defender-se de microrganismos e herbívoros, responder ao ambiente, produzir pigmentos, aromas e estruturas reprodutivas.

Toda essa vida vegetal depende de química.

Portanto, aquilo que chamamos simplesmente de “erva medicinal” é, na realidade, uma organização biológica extremamente sofisticada.

E parte dessa química pode encontrar a nossa química.

Esse encontro é o que me interessa.

O encontro entre duas matérias vivas

Aqui começa a ponte com o primeiro artigo da série.

Eu propus o seguinte Mapa-Mãe:

PLANTA → MOLÉCULA → COFATOR → CÉLULA → ORGANELA → FUNÇÃO → SER HUMANO

Agora estamos entrando no segundo elemento:

PLANTA → MOLÉCULA

Mas até essa seta precisa ser compreendida com cuidado.

Não significa que exista uma única molécula responsável por tudo aquilo que atribuímos tradicionalmente a determinada planta.

Uma mesma espécie pode conter dezenas ou centenas de substâncias detectáveis, distribuídas em concentrações diferentes e até em partes diferentes da planta.

Além disso, variedade genética, solo, disponibilidade de água, luz, clima, estágio de desenvolvimento, processamento e armazenamento podem modificar sua composição.

Por isso, dizer apenas o nome popular de uma planta ainda nos diz muito pouco sobre aquilo que realmente chegará ao organismo.

Flavonoides: uma família, não uma substância

Os flavonoides são um excelente exemplo.

Quando dizemos “flavonoides”, não estamos falando de uma única molécula.

Estamos falando de uma grande família de compostos.

Quercetina, kaempferol, catequinas e antocianinas são exemplos pertencentes ao universo dos flavonoides, embora possuam estruturas e comportamentos distintos.

E aqui aparece um princípio que será fundamental durante toda esta série:

estrutura química importa.

Alterações na estrutura de uma molécula podem modificar sua solubilidade, estabilidade, absorção, metabolismo e interação com proteínas e outras estruturas biológicas.

Portanto, saber que uma planta “tem flavonoides” é apenas o começo da investigação.

A próxima pergunta deveria ser:

quais flavonoides?

Depois:

quanto existe deles?

E depois:

o que acontece com essas moléculas quando entram no organismo?

No meu livro, os flavonoides aparecem como uma das primeiras grandes classes discutidas depois da seção sobre afinidades entre plantas e seres humanos.

Terpenos e terpenoides: quando o aroma também é química

Quem já esmagou uma folha de hortelã, alecrim ou outra planta aromática percebe imediatamente alguma coisa sendo liberada.

O cheiro.

Mas aquele aroma não é uma propriedade abstrata da planta.

Existem moléculas por trás dele.

Os terpenos e terpenoides formam um universo químico particularmente importante nas plantas e aparecem também como uma classe específica no meu livro.

Muitos desses compostos participam dos aromas característicos dos vegetais e das interações da própria planta com o ambiente.

Mais uma vez, porém, precisamos evitar uma simplificação.

Encontrar determinado terpeno em uma planta não significa automaticamente demonstrar determinado efeito terapêutico no ser humano.

Precisamos seguir o caminho inteiro.

Qual molécula?

Qual concentração?

Qual forma de preparação?

Ela chega ao organismo?

É absorvida?

É transformada?

Qual concentração alcança o tecido?

Com que estrutura biológica interage?

É exatamente esse tipo de pergunta que transforma uma afirmação sobre plantas em uma investigação bioquímica.

Fenóis e polifenóis: muito além da palavra “antioxidante”

Existe uma palavra extremamente utilizada quando falamos de produtos naturais:

antioxidante.

Ela se tornou tão comum que, muitas vezes, parece explicar tudo.

Mas não explica.

Os fenóis e polifenóis constituem outro amplo conjunto de compostos encontrados no reino vegetal e também ocupam uma seção própria no meu livro.

Quando entramos na bioquímica, porém, simplesmente dizer que uma substância é “antioxidante” se torna insuficiente.

Precisamos perguntar em qual ambiente químico isso ocorre, em qual concentração, quais espécies químicas estão envolvidas e o que acontece com a molécula depois de absorvida e metabolizada.

Esse assunto é tão importante que merecerá um artigo inteiro nesta série.

Porque a palavra “antioxidante” não pode substituir o estudo da química.

E ainda não terminamos de abrir a planta

Quando comecei a organizar essas classes no meu livro, a sequência não terminou nos flavonoides, terpenos e polifenóis.

Ela continuou.

Glicosídeos.

Saponinas.

Taninos.

Vitaminas e minerais.

Ácidos graxos essenciais.

Esses grupos aparecem sucessivamente naquela parte da obra.

E isso nos ajuda a perceber o tamanho do problema que existe quando tentamos resumir toda essa complexidade dizendo:

“essa planta serve para isso.”

Estamos comprimindo uma matriz química inteira em uma frase.

E os alcaloides?

Aqui vale acrescentar uma família extremamente importante para a fitoquímica: os alcaloides.

Eles formam um grupo amplo de compostos nitrogenados, e alguns apresentam intensa atividade biológica.

Cafeína é um exemplo conhecido de alcaloide.

Esse exemplo é especialmente didático porque mostra que “natural” não significa “quimicamente simples”.

Quando tomamos café, chá ou uma preparação contendo guaraná, não estamos colocando no organismo uma entidade abstrata chamada “energia”.

Estamos ingerindo matéria.

Existem moléculas.

Elas possuem estruturas químicas.

São absorvidas, distribuídas e metabolizadas.

Podem interagir com alvos moleculares.

E dessas interações podem surgir alterações fisiológicas percebidas pelo indivíduo.

É essa cadeia que queremos aprender a enxergar.

Os minerais nos ensinam outra coisa

Agora chegamos a uma parte que considero ainda mais interessante.

Nem tudo que importa em uma planta é uma molécula orgânica complexa.

Os elementos minerais também fazem parte dessa história.

Magnésio, potássio, cálcio, ferro, zinco e outros elementos podem participar da composição vegetal, embora sua quantidade e relevância nutricional dependam da espécie, do solo, da parte consumida e da quantidade efetivamente ingerida.

Meu livro dedica uma seção própria a vitaminas e minerais e às suas funções.

E os minerais nos conduzem diretamente ao próximo conceito do nosso Mapa-Mãe:

o cofator.

Porque inúmeras reações bioquímicas não dependem simplesmente de uma molécula isolada.

Dependem de relações.

Uma enzima pode necessitar de determinado íon ou coenzima para exercer adequadamente sua função.

É aqui que começa a surgir uma das ideias centrais que quero desenvolver nesta série:

Uma molécula isolada não explica o organismo. Sua função emerge das relações das quais ela participa.

A planta inteira não entra inteira na célula

Esse ponto é fundamental.

Quando bebemos uma infusão ou ingerimos determinado alimento vegetal, a planta não simplesmente viaja intacta até nossas células para “curá-las”.

O processo é muito mais complexo.

A preparação já seleciona substâncias.

A digestão modifica outras.

A microbiota pode transformar compostos.

A parede intestinal constitui uma barreira seletiva.

O fígado metaboliza inúmeras moléculas.

A circulação distribui aquilo que conseguiu chegar até ela.

Os tecidos apresentam características próprias.

As membranas celulares novamente selecionam o que entra, sai ou produz sinalização.

Portanto:

presença na planta não significa presença no sangue.

E presença no sangue não significa necessariamente presença suficiente no tecido-alvo.

Esse princípio será essencial quando começarmos a estudar plantas específicas.

O método de preparo também faz parte da química

Aqui entra algo particularmente importante para quem trabalha com ervas.

Água quente não extrai necessariamente as mesmas substâncias que álcool.

Uma infusão não é igual a uma decocção.

Uma maceração não é igual a um processo sob refluxo.

Temperatura, tempo, granulometria, solvente e proporção entre planta e líquido podem modificar aquilo que extraímos.

Isso significa que a pergunta científica não é apenas:

“qual planta foi utilizada?”

Também precisamos perguntar:

“qual parte da planta, em que estado, preparada de que maneira e qual composição chegou à preparação final?”

É por isso que o próximo nível da pesquisa com produtos naturais inevitavelmente encontra a Química.

O natural não é simples

Talvez esta seja a frase que melhor sintetize este artigo:

O natural não é simples. É matéria organizada em relações.

E essa compreensão também nos protege de outro erro.

Natural não significa automaticamente seguro.

As mesmas plantas que produzem moléculas de interesse podem produzir substâncias irritantes, tóxicas ou capazes de interagir com medicamentos. Identidade botânica, parte utilizada, quantidade, preparação e contexto de uso importam.

Conhecer melhor a planta não diminui seu valor.

Faz exatamente o contrário.

Quanto mais entramos dentro dela, mais impressionante ela se torna.

Da planta para dentro da célula

Estamos apenas no segundo artigo desta caminhada.

No primeiro, construímos o mapa:

PLANTA → MOLÉCULA → COFATOR → CÉLULA → ORGANELA → FUNÇÃO → SER HUMANO

Hoje abrimos a planta.

E descobrimos que aquela folha aparentemente simples pode ser compreendida como uma verdadeira matriz química.

Agora podemos avançar.

Nos próximos artigos, entraremos progressivamente nessas famílias químicas, nas moléculas individuais e, depois, no encontro delas com a célula humana.

Porque meu objetivo nesta série não é abandonar o conhecimento tradicional sobre as ervas.

Também não é reduzir uma planta inteira a uma molécula.

É tentar construir uma ponte.

Não estamos abandonando as ervas para estudar bioquímica. Estamos entrando dentro das ervas. E depois entrando dentro da célula humana para compreender o encontro entre as duas.

É nesse encontro que a nossa viagem está apenas começando.

Simão Sirineu — Ney Hair
Técnico em Química | Cosmetologia | Autor de Se Curando com a Mente e com as Ervas
Vital Essencial — Série Da Planta ao Ser Humano

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